COMUNICADO 1 J 2019

“Tratar o real com honestidade sempre supom exercer umha violência, cara umha mesma e cara o existente, porque implica deixar-se atravessar corpo e mente e porque supom entrar na cena para tomar posiçom e violentar”

Valerie Solanas

Aclaraçom prévia: Somos feministas autónomas que nos juntamos pola necessidade de dar umha resposta coletiva.

                                   O Aturuxo das Marías foi o cenário. Qualquer outro podia ter sido.

CONTEXTO

Chegar até aqui foi possível graças ao trabalho e aportes de muitas geraçons de companheiras das que herdamos a possiblidade de denúncia e a ideia de que a legitimidade de definir que é umha agressom, é da agredida e nom do agressor. 

Há já anos que começamos a tomar consciência de que os agressores também militam com nós. Isto materializa-se com umha denúncia pública no 2015 de um agressor e sua gestom posterior, processo que gera a necessidade da creaçom de um protocolo contra as agressons machistas nos movimentos sociais. Este caso supujo um ponto de inflexom à hora de respostar publicamente as agressons sinalando a um militante de dentro da esquerda e dos movimentos sociais da Galiza. No seu momento, sacar isto à luz foi polémico, pero sentou precedente para que se visibilizaram outras agressons dentro dos movimentos sociais e para que os companheiros com os que compartimos militância perceberam que nom por estar dentro dos espaços de trabalho político estám exentos de ser assinalados como agressores.

Alguns homens começam a reconhecer o seu rol como agressores e mesmo a estrutura que legitima este poder e violência. O ponto central que motivou os acontecimentos da convocatória do 1 de junho é que eles, mália se reconhecer agressores, nunca assumiram a responsabilidade de o ser. E continuaram agredindo.

O que aconteceu o sábado 1 de junho nom foi umha açom isolada, foi umha resposta a umha situaçom de emergência. Umha reaçom de autodefesa.

Umha semana antes, umhas moças reuníamo-nos para umhas jornadas de obras, para choiar e partilhar um tempo juntas. Apareceram, entre outras falas, as agressons, ainda que nom era o objetivo da juntança. As primeiras que apareceram foram as que temos mais naturalizadas: “um tio que te berra pola rua, um fulano que te toca o cu de festa…”

Chega a noite. Umha companheira fala de umha violaçom. Desta volta o violador nom é um desconhecido. Depois sae outra. E outra. E outra. Fijo-se o silêncio. Choros. Impotência. Raiva. De repente, as violaçons passam da esfera pessoal à coletiva. Algumhas delas acontecidas nos últimos meses, e todas por parte dos nossos companheiros, com os que partilhamos espaços de luita e, com alguns, muitos aspectos das nossas vidas. E berramos. E outras compas já estavam berrando também. E outras. E outras. E o berro fijo-se coletivo.

Entom xorde a pergunta: que estamos fazendo para que isto deixe de acontecer? Protocolos, grupos de masculinidades, espaços nom-mixtos, vetos, debates, pedagogia com as pessoas mais achegadas… Para chegar onde estamos este trabalho foi necessário, pero estas agressons amossam que nom é suficiente. Dói-nos a vida. Seguimos criando espaços e relaçons pessoais que achamos seguras, mais nom o som.

Que é um espaço feminista? Até que ponto som os centros sociais espaços de segurança? Até que ponto estamos a mudar a forma de relacionarmo-nos?

O certo é que partilhamos espaços com amigos, irmáns, e levamos anos vendo como eles nom assumem a sua responsabilidade na luita contra as violências machistas. Finalmente, preferem manter os seus privilégios mediante a camaradaria em vez de rachar com o patriarcado que levam dentro. Quando há umha agressom, sempre somos as moças as que assinalamos; quando há atitudes machistas, som sempre as nossas vozes as que se alçam. Além de levar o peso de receber as agressons, somos nós as que temos que acompanhar, reflexionar, propor medidas.

Estamos fartas! A raiva também é nossa!

A guerra já estava aí pero estava silenciada!

DO ACONTECIDO NA CONVOCATÓRIA

Moços vencelhados direta ou indiretamente com os movimentos sociais da Galiza e com os que nós militamos e partilhamos vínculos afetivos, foram convocados o 1 de junho às 18.30h no CSOA o Aturuxo das Marías.

Abrimos-lhes a porta do espaço media hora mais tarde, e aos primeiros ordenamos-lhes que subissem ao piso superior. O resto seguiu um cartaz que indicava que subiram ao terceiro andar, chegando dous deles com demora, os que subiram ao tempo que nós. Na sala estavam as suas fotografias penduradas com os seus nomes escritos enriba (101 no total). Eram quarenta moços, nós –também umhas quarenta moças- ao subir nom entravamos na sala, polo que tivemos que reclamar várias vezes esse espaço e dizer-lhes que se botaram para atrás, pois muitas das moças estavam ainda aguardando nas escadas.

Deixamos um rotulador numha cadeira e dizemos-lhes que se assinalassem, a eles mesmos e a outros, caso de considerar-se ou considerá-los agressores. Umha ampla maioria dos homens ali presentes saíram a se apontar a si próprios; muitos deles assinalaram também a outros. Um homem escreveu uns interrogantes sobre a sua fotografia. Dous moços assinalaram todas as fotografias. E mínimo quatro nom saíram. Só havia um rotulador, deliberadamente só um. Queríamos observar todo o processo com a calma.

Quando finalizaram, nós limos umha listagem dos homens que sabíamos cometeram algumha agressom machista, nom necessariamente agressons sexuais; acompanhando isto com um círculo nas suas fotos, com o fim de diferenciar os nossos assinalamentos dos deles. A nossa listagem contava com 48 nomes. Quase todos os que nós nomeamos assinalaram-se eles próprios antes. Quase todos.

De seguido lemos um texto; a maioria de nós chorávamos. A meirande parte deles miravam cara ao cham à vez que nos redistribuíamos ocupando nós mais espaço.

No comunicado advertíamos-lhes que a convocatória nom se tratava de um diálogo e reconhecíamo-los como o que eram para algumhas, como o que som para outras: os nossos companheiros de vida e de luita; os nossos irmáns. Dizíamos-lhes que nom suportávamos mais agressons, mais violaçons, que as violências superaram os limites da nossa compreensom. Dizíamos-lhes que continuavam sem se responsabilizar do que nos fam, individual e coletivamente. Dizíamos-lhes que nom podiamos seguir partilhando espaços com quem nos agrede e viola sistematicamente. Dizíamos-lhes, e isto é central, quanta dor nos produze que prefiram os seus privilégios a nós, à nossa aliança.

Logo as agredidas exercemos a violência física; e nom foi esta umha violência programada. Mas si éramos conscientes de que isto podia acontecer ao colocarmo-nos fronte aos que agrediram.

Dos, aproximadamente, quarenta assistentes, em esse momento, quatro deles receberam violência física:

Um deles três cuspes, duas labaçadas e um empurrom.

Outro umha labaçada.

Outro umha labaçada e um cuspe.

E ao outro, em dous momentos distintos, umha moça foi-lhe bater e berrar.

Dos assistentes, nenhum contra-atacou e um deles abandonou o espaço quando deu começo a violência física.

Acusamo-los, lanzamos-lhes perguntas: “-ti violaches?”  “-si” “e advertiste-me? Porque eu cria que ti eras meu irmám”.

Quando consideramos que todo fora dito, ordenamos-lhes que marcharam do espaço. Enquanto baixavam, oito moças distribuíram-se entre a porta do espaço e as escadas. Nesta saída foram vários os que receberam umha resposta física: houvo umha punhada, algumhas patadas, labaçadas e collejas e algum empurróm (sem chegar a cair nenhum).

Todo durou aproximadamente umha hora e meia.

REAÇONS

Antes de expor aqui as reaçons, queremos deixar claro que o que aconteceu essa hora e meia foi um exercício de valentia, mas nom por isto nom doloroso. É necessário também falar das nossas reaçons internas antes que das externas. Este processo foi moi duro no individual e também no coletivo. Mas era um berro desesperado e necessário trás assumir que som os nossos companheiros os que nos violam e nos agridem sistematicamente. Moitas vezes somos nós próprias as que invisibilizamos as agressons por continuar a priorizar os nossos vínculos, os nossos laços afetivos.

Esse “Basta já!” é o estourar dumha situaçom insostível. Ás vezes só das ruínas e só desde o destrutivo podemos começar a construir… doutro jeito. Vamos fazer o que seja para que os nossos corpos e os das nossas compas estejam seguros. Isto só se conseguirá com um trabalho de luita pessoal e coletiva por parte dos homens. De nom ser assim, seguiram a nos agredir impunemente e já estamos fartas, joder! Estamos fartas!

Dito isto, observamos diferentes reaçons ao acontecido o 1 de junho: quem apoia, entende, assume e tem a vontade de se revisar; quem, amparando-se nas formas, invisibiliza, nega e invalida a mensagem ou o contido de fundo; quem nunca acreditou no feminismo e agora mostra a sua face real pondo a sua ideologia machista na cima da mesa baixo a escusa do acontecido, passando por um amplo abano de posicionamentos e atitudes.

Ante todas estas reaçons, queremos agradecer a todas as compas que se achegaram a nós desde diferentes opinions ou posicionamentos, pero desde unha atitude de escuta e respeito. Graças também a todas aquelas que nos fizestes chegar o vosso agradecimento, saber que esta açom ajudou a outras moças fai-na mais valiosa ainda.

Como se desacredita o que passou o sábado?

Em primeiro lugar, com o questionamento das formas. Critica-se o feito de sermos violentas, de utilizar a açom direta. É incoerente que as mesmas pessoas que acreditam nesta prática em todos os demais aspectos da luita, sejam agora quem nos acuse de confraternizaçom com o fascismo. Como é possível que a autodefesa seja aplaudida quando se foca contra alguém de fora do movimento e agora nos miram escandalizados por foca-la cara dentro? Será que reconheciam estas práticas de maneira ilhada e nom baixo umha estrutura? Será que tenhem medo ao fim da sua impunidade? Exigem-nos ser pedagógicas, compreensivas, nom fazer uso da açom direta. Exigem-nos que ante umha situaçom normalizada de agressons e violaçons a nossa resposta seja a pedagogia continua e infinita pero nom a raiva. Podem entender as báguas pero nom os punhos. Por que? Porque nom assumem a violência que exercem contra nós como um problema real presente nos nossos espaços. Analisa-se de forma isolada, evita-se abordar o problema convertendo-o em algo alheio, e busca-se que o jeito de resolver seja no privado e non coletivamente. Querem que fique baixo a alfombra porque nom se admite que existe umha cultura da violaçom da que os homens som partícipes por causa da sua socializaçom. Por isto, ponhem o questionamento nas formas: na violência, nos punhos, nas fotos… Na contra, nom se questionam o seu papel e responsabilidade na violência exercida, nem assumem o que levou às suas companheiras a se reconhecer como agredidas, aos reconhecer como agressores. A estratégia é simples: aferrar-se à crítica das formas para poder obviar o conteúdo de fundo. A açom do 1 de junho foi um exercício de dignidade coletiva. Um pór as cartas sobre a mesa: visibilizamos as violências que exercem sobre os nossos corpos e assumimos a resposta. As formas poderiam ter sido outras, pero as críticas seriam as mesmas: repetem-se ante cada açom de autodefesa.

Em segundo lugar, questiona-se umha suposta lógica punitiva. Nós assumimos, desde diferentes posiçons e perspectivas, que era necessário e urgente dizer-lhes aos nossos companheiros que já chegou! Esta açom gerou-se desde a raiva, pero também com o objetivo de coletivizar um problema, aliviar a necessidade de expor unha realidade que era ignorada e invisibilizada. É certo que houvo violência física, mas isso non significa que provenha dumha lógica de castigo, senom umha expressom de repulsa desde as nossas entranhas do que está a acontecer. Por isto, resulta anedótico quando se aponta que esse dia houvo umha violência programada e sistemática. Se isto existisse, todas respostaríamos de igual jeito, com as mesmas formas e desde a correspondência de umha resposta para cada agressom acometida. E isto nom foi assim.

Dentro deste ponto, queremos salientar também que, a aqueles que falam de lógica punitiva, pouco lhes importou utilizar o sistema de vetos como jeito de castigo contra nós, instrumentalizando unha ferramenta feminista de autocuidado que garante a nossa segurança; ou executar um amplo rango de medidas de castigo contra nós em diversos âmbitos das nossas vidas. Do mesmo jeito, aqueles que criticam que assinaláramos aos nossos agressores ante as pessoas presentes o 1 de junho, nom tenhem reparos ao expor publicamente a moças presentes na açom. Esta incoerência ou doble raseiro é moi obvio quando se comparam as suas reaçons ante a nossa açom do 1 de junho (imediata mobilizaçom de pessoas e recursos e publicaçom de diversos comunicados) e as reaçons das mesmas pessoas ante casos de agressons machistas (passividade, silêncio, invisibilizaçom, ridiculizaçom e minimizaçom das agressons, resistência ante as medidas de proteçom das agredidas, ataques às agredidas e às pessoas que as apoiam, e defensa dos agressores).

Em terceiro lugar, chamam-nos irracionais: non temos a capacidade de razoar e decidir livremente, ou bem atuamos desde o sectarismo ou bem unha pequena cúpula que manipula ao resto. Assim, responsabilizam de toda a açom a unhas poucas moças, as malas mulheres, as tolas, às que convertem deste jeito no inimigo a odiar e castigar; enquanto infantilizam ao resto, a quem vem como joguetes manipulados, a quem resgatar e reeducar. Por isto, falar de manipulaçom da sororidade parece-nos insultante. 

Esta visom está de novo mediada polos prejuízos e as relaçons pessoais, e responde a umha estratégia de dividirmo-nos e desacreditar na autonomia das que decidimos estar aí. Pola contra, reconhecemo-nos na própria diversidade, na que há múltiplos sentires respeito ao que aconteceu, na que as circunstancias som diferentes, na que nom todo o mundo se sente igual. E isto non é algo que queiramos eliminar, nem algo negativo, senom que a nossa presença desde diferentes pontos responde a que todas nalgum momento das nossas vidas sentimos a violência daqueles aos que chamávamos companheiros. Com esta açom decidimos pór as nossas vidas no centro.

Em quarto lugar, acusam-nos de ir na contra do trabalho feito polo feminismo. Desde há muito tempo, entendemos que non há um só feminismo, senom um feminismo diverso. Também nós o somos, pero é desde o feminismo que acredita na legítima autodefesa que nós decidimos artelhar esta açom. Queremos recalcar que a nossa existência non vai na contra doutras formas de fazer, senom que é unha mais das possíveis, e por isso queremos que seja respeitada.

Estes argumentos, entre outras cousas, foram os utilizados para desacreditar o acontecido esse 1 de junho. Um relato construído para criar empatia com os agressores presentes e nom com as mulheres agredidas. Um sem-fim de comunicados imediatos nos que eles tendem a se vitimizar e a nos acusar de non dar com as formas idóneas para que eles parem de agredir-nos e violar-nos. Culpabilizam-nos de nom dar com o botom exato, com a fórmula mágica, que consiga que eles revissem os seus privilégios e as suas condutas. Porém, nom som, nem neste caso nem noutros, de pôr-se no nosso lugar. Um lugar que desde logo nom poderiam suportar, já que som quem de comparar-se a si próprios, por essa hora e media de açom, com coletivos sistematicamente marginalizados, perseguidos, torturados e assassinados.

E as consequências destas reaçons?

Com todo isto, sai à luz o discurso latente dalguns dos nossos companheiros, que nom acreditam na veracidade das agressons que denunciamos, que nom acreditam na existência das violências estruturais que sobrevivemos e contra as que luitamos. Em resumo, os argumentos que estam a utilizar para nos desacreditar já os conhecemos: feminazis, tolas, exageradas, denúncias falsas… Por muito que o disfarcem com outras palavras, o fundo é o mesmo, e aí estám os machistas de ultradireita e de esquerdas, os agressores comunistas e os anarcas, os que ostentam cargos políticos e os que ocupam informalmente umha posiçom hierárquica.

Neste encontro reafirmam-se nas suas posiçons, nos seus privilégios. Defendendo ao amigo agressor defendem-se a si próprios, posto que sabem que podem ser os seguintes dos que se faga pública umha agressom cometida. Neste encontro vam pechando filas para nom ter que escutar nada mais que a si próprios: é mais singelo atacar ás companheiras que trabalhar os próprios privilégios.

As consequências desta sua escolha som a reafirmaçom do discurso patriarcal mais cru, criando um contexto de desvalorizaçom da luita feminista no geral, e concretamente impulsando um processo de deshumanizaçom das moças que participamos na açom e de descrédito das violências que denunciamos. Isto non é unha ideia teórica, senom unha prática da violência que já exerceram contra várias de nós: agressons físicas, acosso, ameaças de agressom sexual,… baixo o amparo desse discurso patriarcal contra nós, porque ninguém nos vai crer ou a ninguém lhe vai importar que sejamos agredidas: simplesmente por termos exposto um problema coletivo, por deixar claro que o nosso corpo e as nossas vidas vam no centro.

CONTEÚDO POLÍTICO

Em esta época de posmodernidade que enfatiza a diversidade que existe no próprio sujeito “mulheres”, quase que poderíamos aventurarmo-nos a afirmar que nós somos já só umha comunidade afetiva; umha coletividade unida inexoravelmente por umha trágica laçada de subordinaçom, violência, terror, sofrimento e raiva. A raiva aparece em nós como o instinto da autodefesa; confirma os nossos limites, diz-nos que já nom aguentamos mais; pero nom só: a raiva anula o terror, a raiva canaliza o sofrimento e a raiva… a raiva resposta à violência com mais violência.

Vemo-nos agora na obriga política de explicar a diferença entre agressom e autodefesa. De falar da legitimidade de certo tipo de violência. Quando nós somos violadas ou agredidas, o somos dentro de umha estrutura social, política, econômica e cultural que ampara, permite e (re)produze essas violaçons e agressons. Esta estrutura chama-se patriarcado. Si, vivemos e relacionamo-nos dentro de um sistema de poder patriarcal, somos patriarcado.

As mulheres estamos culturalmente construídas dentro de esse patriarcado como um sujeito inerme; um sujeito inerme é um sujeito indefenso e inofensivo. Este sistema de opressom define-nos e redefine-nos permanentemente como vítimas e só vítimas; um sujeito que é concebido vítima está impossibilitado para gerar dano: só pode sofre-lo. Isto explica parte da consternaçom social que se produze quando as mulheres transgredimos o imperativo da inermidade e transformamo-nos em vitimarias.

É lógico entom, chegar a conclussom de que quando nós, as agredidas, respostamos com violência -violência simbólica e violência física- a essa outra violência sistêmica, estamos levando à praxe a autodefesa.

Parte da esquerda –e parte de certos feminismos- exclamam que a violência é patriarcal; pero a violência nom é, como o poder, nom se possui, exerce-se.

O exercício da violência física por parte das mulheres é um objeto incómodo e polêmico. Para algumhas pessoas, as mulheres que exercem violência simplesmente nom som mulheres; e desde logo, nom som feministas. Existe por outra banda, quem só aplaude as nossas açons violentas quando som cara outros. Esta anestesia moral dá-se quando a violência é dirigida a alguém afastado. Nom nos remove, nom nos afeta. Está, polo tanto, bem.

Neste sentido, homens que só vem o erro no alheio, venhem pisar a nossa autodefesa, ocupando rapidamente a primeira linha quando um desconhecido nos agride num bar. Aqueles mesmos que querem rapidamente defender-nos, som os que agora condenam os nossos berros por ser contra eles. Nom, as mulheres nom podemos assinalar por nós próprias aos nossos inimigos.

Todo este tipo de compreensons que tentam anular a açom, mediante a anulaçom do sujeito que a acometeu, aparecem ao resgate daquilo que é socialmente inconcebível: mulheres humilhando, mulheres exercendo violência física. As mulheres que estávamos o sábado 1 de junho ali seremos recordadas, a partir de agora, para muitas pessoas como umha imagem de monstruosidade. A mesma imagem sobre a que se teria justificado durante séculos o isolamento das mulheres subversivas: desde o afastamento social até a patologizaçom e ingresso em instituçons psiquiátricas ou penitenciárias.

A lógica punitiva nom parte de umha lógica neutral, senom sexista; como o próprio Estado, é patriarcal: o exercício punitivo está baixo o controlo dos homens e é desde o seu ponto de vista que se detectam, identificam e castigam as anomalias que perturbem a (sua) paz social.

Quando o caso Sanmartín (2015) colocou a necessidade de revalorizar e ressignificar as violências desde o sofrimento da agredida, a procura de umha alternativa à lógica punitiva estivo muito presente: precisamente por isto se fizeram processos de acompanhamento, por isto se ofereceram ferramentas de diversa natureza e por isto se elaborou um protocolo. Baixo a conviçom de que pessoas distintas, em contextos transformadores, poderiam, efetivamente, transformar-se; para o caso: deixar de agredir; é dizer, que além de sofrer as agressons e o questionamento social ao fazê-las públicas, nós assumíramos a responsabilidade de reinventar novas formas de gerir tales agressons fora da lógica punitiva do Estado. Mas as agressons continuariam a acontecer e as mulheres continuaríamos a sofrer.

A diferença doutros casos de denuncia pública, desta volta assinalamos e assinalaram-se –eles mesmos ou entre eles- como agressores a todos os homens dos movimentos sociais. Isto ativa unha importante rede afetiva e de solidariedade que nom nos é alheia; para compreender o acontecido o sábado 1 de junho é imprescindível ter em conta que nós também fumos ou somos parte de essa rede afetiva e de solidariedade: algumhas das que ali estávamos nom tínhamos nem ideia de que os nossos companheiros agrediram a umha ou a várias das nossas irmãs; outras, simplesmente, si o sabíamos.

Estas, nós, borráramos, esquecêramos, obviáramos as suas agressons; aprendemos a fazer isto: a borrar, esquecer, obviar, para poder seguir querendo-os comodamente, para poder seguir querendo-os e ponto. As nossas alianças com os homens faziam-nos duvidar e as nossas dúvidas levaram às nossas irmãs a abandonar espaços: as nossas dúvidas levaram às nossas irmãs, às iguais, ao isolamento.

Assim, algo essencial do processo político do 1 de junho é que nós acionando a autodefesa feminista responsabilizamos a todos os homens do nosso entorno das agressons machistas que nele se produzem. Os homens som sujeitos individuais, com as suas especificidades, som identidades com possibilidade de mudança, de transformaçom, identidades que nom som fixas. Mas todos pertencem ao mesmo grupo estrutural, e por isto todos exercem a violência patriarcal.  Seja por conservar certo tipo de afetos –camaradaria masculina-, seja por nom trabalhar em umha desconstrução coletiva, em umha desprogramaçom, vós, os nossos companheiros, seguides a criar espaços e relaçons de opressom com as mulheres que tendes arredor.

AUTOCRÍTICA

Fazemos autocrítica porque sentimos que revisarmo-nos é umha parte honesta e fundamental de fazer política feminista. Enriquece-nos e faz-nos medrar coletivamente. 

Sentimos também que tivemos erros derivados das présas. Pesa-nos especialmente, nom ter chamado a todas as compas que quisseramos e nom ter tido o tempo de revisar e consensuar a nossa linguagem, mas o estado de emergência no que estávamos demandava umha resposta urgente. Nom íamos aguardar mais. Isto significaría seguir expondo os nossos corpos a possíveis agressons. Precisávamos umha resposta imediata. Precisávamos exteriorizar a raiva, apropriar-nos dela como umha ferramenta política também legítima para nós. Nesta como em todas as nossas luitas. Assim, este sentir expressou-se em nós de jeitos diversos: desde berros, enfado e golpes até prantos, culpa, dor… tantos sentires como moças estávamos nessa sala.

Esta mesma necessidade de urgência na nossa resposta, de concretar umha açom-reaçom direta fijo que os sentires diversos estiveram refletidos em níveis desiguais. Somos conscientes de que houvo companheiras que vinhemos atendendo a um pedido de sororidade com muito pouco tempo para processa-lo ou mesmo sem sabe-lo. Entendemos que isto puido abrir feridas tendo pressionado processos pessoais sem prévio aviso.   

As nossas vozes som diversas pero um sentir comum atravessa-nos: imos fazer o que seja para que os nossos corpos estejam seguros. Para nós próprias estar seguras.

Somos conscientes da nossa transfobia e homofobia interna. Responsabilizamo-nos por isto. Sabemos que o texto tem umha linguagem opressiva cara coletivos e identidades nom binárias ou normativas. No momento prévio à açom, fizemos umha revisom coletiva e superficial deste texto, nom por isto livre de linguagem excludente. Mas o texto que está a circular é um rascunho, um borrador filtrado. Nom é o texto que se leu o 1 de junho. Como for, queremos seguir assumindo e desconstruindo esta lógica inerente a nós. Buscar as raçons de que nos movamos em um contexto binário e branco, é umha questom, entre muitas outras, que nos faz reflexionar.

Algumhas concordamos com a afirmaçom: “todos os homens som violadores” Outras nom. Mas todas partilhamos que todos os homens socializados como tal estám programados para violar, insertos -igual que nós- numha cultura da violaçom da que som partícipes. Mais conscientes ou menos, tenhem umha responsabilidade crucial em esta luita.

Queremos assinalar também que o texto está-se a interpretar desde umha literalidade, ao nosso parecer, mal-intencionada. Nom se exige a mesma coerência discurso – açom em outros espaços e momentos de luita. A declaraçom de guerra, se bem para algumhas nom é literal, sem dúvida supom um ponto de inflexom. No entanto que muitas de nós nom queremos seguir a partilhar espaços com homes socializados na agressom, outras si, mas desde outra lógica e desde outras bases de relaçon mui afastadas das atuais.

Pomos o foco em nós, na nossa sororidade e marcamos um limite claro e contundente ante os agressores.

Assumimos os nossos erros, os nossos privilégios. Assumimo-nos incoerentes e contraditórias. Algo que sentimos inevitável no atuar desde o político, no fazer política desde o pessoal. Reflexionamos, pero também sabemos que de nom fazer nada, nada muda.

“Tenho a firme crença de que a açom fala por riba das palavras, de que há que desafiar e nom tentar convencer e de que o enfado extremo é a verdadeira força que há trás todo cambio social

Juliet Belmas

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